Senso de justiça

Senso de Justiça

Eu adoro os artigos da Circe. Ela consegue mostrar sabedoria nas situações cotidianas mais corriqueiras,  consegue trazer um olhar lúcido sobre fatos diários e sempre me fazem refletir sobre meu próprio comportamento enquanto mãe. No artigo de hoje, especialmente, vi um paralelo sobre o que está acontecendo em nosso país. Vi que padrões iniciam em casa, para o bem e para o mal, e são perpetuados na escola, na cidade, no país. Uma reflexão necessária sobre o senso de justiça “comum”. Será?

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As crianças possuem um senso de justiça natural. Nasce com elas. Não precisam aprender. Mas perdem ao longo da vida, infelizmente. Mais ou menos isto foi o que aconteceu com Laurinha.

Aos oito anos seus pais mudaram de cidade. Saíram da capital e foram morar numa pequena cidade do interior. Escola nova, amigos novos. Professoras, colegas, tudo diferente. Era agosto. Meio do ano, portanto todas as alunas já haviam formado seus grupos. Era urgente encontrar amigas. A escola, só para meninas, era bem renomada, administrada por irmãs católicas. Nem sempre tão justas quanto se faziam crer. Ana Matilde, filha de uma das funcionárias da limpeza, naturalmente não fora aceita em nenhum dos grupos. Preconceito apresentado pelos pais e rapidamente incorporado no cotidiano das meninas.

Uma série bem composta de motivos faziam com que a menina fosse sempre excluída das atividades de grupo. Laurinha, com seu olhar rápido e perspicaz logo entendeu porque Ana Matilde estava sempre só. E entendeu também que ela era a sua única chance de ter uma amiga. E assim se tornaram. Literalmente, melhores amigas. Laurinha a protegia sempre dos ataques maldosos que sofria por parte das colegas. A menina sofria bulling a todo momento, embora o termo não fosse nem sequer conhecido na época. Numa destas costumeiras situações, Raquel, que se considerava a líder de todas, teve uma atitude que feriu profundamente as duas meninas.  

Havia uma fila de alunas, aguardando a vez para tomar água, num dos únicos bebedouros que havia no pátio. Ana Matilde seria a próxima. Mas Raquel surgiu de repente e, conforme era seu hábito,  afastou a menina dando-lhe um empurrão. Laurinha correu para auxiliar a amiga e ao constatar que ela não estava machucada voltou-se para a agressora. Você não pode fazer isto, falou aos gritos. E, com a mesma força que usou para gritar retirou a  menina do bebedouro. Naquele instante houve uma espécie de silêncio.

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Poucos segundos, na verdade, mas o bastante para que as outras meninas compreendessem que alguma coisa muito séria estaria acontecendo. Raquel começou a chorar e logo, incitada pelas companheiras que compartilhavam com seu modo de agir, atirou-se sobre Laurinha. A menina esquivou-se com habilidade. Imediatamente dois grupos se formaram. As que apoiavam Raquel e as que concordavam com Laurinha. Assim seguiram num embate de forças que representava muito bem a luta de poder que existe entre os adultos.

Depois de algumas saias rasgadas e blusas desfeitas, cabelos despenteados, ouviram-se os gritos enraivecidos de Irmã Teresa. Parem já com isto meninas, ela ordenou. E tomando cada uma pelo braço,  encaminhou-as para a madre superiora, Irmã Rosália. Algumas falas, reclamações e justificativas e Laurinha recebe um bilhete. Entregue a sua mãe, disse-lhe com rispidez, a senhora madre. Ana Mathilde esperou pela amiga na sala, com muita ansiedade. Tinha medo do que poderiam fazer com ela mas também temia perder a amiga caso ela fosse expulsa da escola.

Dona Lourdes aguardava na sala de espera para falar com a madre.

–  Pois não? diz a jovem sentada na mesa da secretária.

–  Recebi este bilhete, diz a mulher.

Enquanto aguardava, seu olhar atento também observava. Lembranças surgiam. Cortinas escuras, pesadas. Parecem de veludo. Nossa! Pensou. São iguais. O chão brilhava e reluzia como um espelho. Ficou imaginando a dificuldade de manter aquela limpeza impecável. A  mãe de Laurinha sabia muito bem o quanto custava manter aquele brilho. Móveis de madeira trabalhada, mogno provavelmente.

No centro da sala, uma mesinha com um pequeno vaso de flores artificiais, sem cor, desbotadas. As poltronas  de couro pareciam gastas. Estavam manchadas, observou dona Lourdes. Perdida  em seus pensamentos e lembranças, não ouviu a moça que lhe autorizava a entrar na sala da diretora. Você não ouviu Isadora lhe chamar três vezes? Pergunta-lhe a freira, visivelmente contrariada. A senhora, nada responde.

– Porque me chamou irmã?

– Você sabe o que sua filha fez com uma de nossas melhores alunas?

– O que minha filha fez eu sei. E a senhora sabe o que a menina fez?

Irmã Teresa ficou espantada com a atitude da mãe de Laurinha. Sem esperar pela resposta da diretora, a mulher indaga com firmeza. Onde está a mãe da menina que brigou também? Ela não foi chamada, diz a freira. Dona Lourdes, sem nada dizer, mas demonstrando sua indignação, levanta-se, resoluta, e sai. Na porta, volta-se. Me avise novamente quando chamar também a mãe da outra garota.

A madre fica sem fala e sem ação. Estava preparada para acusar a aluna, dizer à mãe sobre o mau comportamento de sua filha. Para ouvir pedidos de desculpas, enfim, estava esperando atitudes que lhe referendassem o poder. Poder de Madre Superiora. Pois isto ela era. Mas ficou, literalmente desconcertada quando Dona Lourdes saiu. 

Não chamou a mãe de Raquel. Havia uma espécie de amizade entre a família e as freiras, por conta dos altos donativos que o pai da menina ofertava para a escola. Portanto, nada foi feito para não prejudicar a menina Raquel.

Laurinha nunca entendeu porque Raquel não fora punida por sua atitude mal educada. Sua falta de amor ao próximo, seu sentimento de poder desenfreado que a fazia pensar que as outras meninas lhe deviam obediência. Porque nunca mais se falou no assunto e Raquel simplesmente não arrependeu-se. Laurinha observou que a mãe
nunca lhe castigou e nem ao menos lhe chamou a atenção por haver brigado na escola.

Muito tempo depois, quando se tornou adulta, ela finalmente entendeu tudo, inclusive a resposta lacônica da mãe, quando lhe inquiriu a respeito.

  • Eu conheço o mundo, minha filha. A justiça nem sempre se faz presente ou se impõe pela força da verdade que possui.

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Circe Palma

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Sobre o Autor : Claudia Bins

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