Pular fogueira

pular fogueira
 Na crônica de hoje, Circe Palma fala sobre crescimento, desafios e oportunidades de mostrarmos, como pais, nosso incentivo aos filhos. Como sempre, Circe se utiliza de fatos cotidianos para refletirmos sobre nosso papel e como exerecê-lo com sabedoria.
 
Pular Fogueira!

Cortam bandeirinhas com as folhas das revistas velhas, fazem pequenos balões de papel. Preparam as rapaduras, os doces, o quentão. A festa prometia ser muito divertida naquele ano. Laurinha quer muito pular a fogueira. Todo ano diz a si mesma que vai pular. Mas, ai, que medo!!! A mana sempre consegue pular, diz para sua mãe. Mas, minha filha, você ainda é muito pequena! Tranquiliza Dona Silvia.

Mas aquele pulo, se houver, será para a menina, a glória. O que D0na Silvia não sabe é que há muito mais em jogo, do que um simples pular a fogueira.
 
Os meninos trazem galhos das árvores que cortaram em pequenos pedaços, restos de pneus velhos, jornais, tudo o que pode se tornar combustível para alimentar o fogo.
 
Mas, credo! Tá ficando uma montanha! A menina observa, com certa preocupação, quando Eduardo precisou de uma escada para colocar uma pilha de papel bem em cima da fogueira. Meu Deus, pensou ela. Como vou pular isto tudo?
 
Raquel, amiga de infância, para todas as horas, como o são as melhores amigas, logo encontra solução. Tenho uma idéia, Laurinha. Como? Você faz assim oh! E quando tentava lhe mostrar, a mãe chama para o jantar. Tenho que ir, amiga! Laurinha fica ainda mais confusa. O que vou fazer? Pergunta-se ansiosa.
Tenho que pular. Não há outra saída para mim.
 
Quando tinha 6 anos, quase conseguiu. Mas o incidente com o irmão que queimou a perna na tentativa, fez com que os pais a proibíssem. Para todo o sempre, havia dito o pai.
 
Pular a fogueira de São João, passou a ser para Laurinha um desafio dos mais difíceis na vida. É como um ritual de passagem para a idade adulta e ela já está com doze anos. Não pode esperar muito mais. Precisa superar. Mas e o pai? E a mãe? Nossa, não sei o que é pior. Enfrentar o pai e a mãe ou o fogo? Assim a menina pensa enquanto se afasta da fogueira, lindamente montada, da mesa, das bandeirolas, enfim de todo o cenário, que já está pronto para a festa começar. As festas juninas tem um valor inestimável. São o folclore do povo. Representam, suas histórias, seus medos, suas tradições. Um dia vou dançar a quadrilha, disse a si mesma, em silêncio, para que ninguém ouvisse. Mas com quem? Aí estava o principal problema de Laurinha. Aquele menino, há de se ver comigo. Não vou desistir. E ensaiava, no pensamento, um pulo tão alto, que a fazia sentir-se voando. No céu. Confundiu-se com um balão. A saia de chita, recebeu uma rajada de vento e o balão Laurinha subiu, subiu, até as nuvens. Lá embaixo, a fogueira!
 
Enorme fogaréu, expelindo línguas de fogo. Os fogos de artifício a trazem de imediato para o chão. A mãe puxando seu braço a trouxe de volta à realidade. Menina! O que é isto? Dormindo no chão? Levante-se. Confusa a garota segue correndo para uma das barracas e pede um quentão. Para você? Uma criança? E  a moça se põe a rir. Era o fim.
Não poderia mais suportar a humilhação. Agora eu vou. Se pôs numa corrida desabalada em direção à fogueira. Juca grita bem alto o seu nome, logo que percebe o que a garota ia fazer. LAURA! É POR AQUI! A menina pára. E só então percebe que ao lado da fogueira há um pequeno monte de gravetos, em brasas, com alguns centímetros de largura. Este é o que você deve pular! Seu coração dispara, suas pernas adquirem a maior velocidade que já havia conseguido e num impulso atira seu corpo para cima, em direção ao céu, pensou ela. Logo se ouve o som do corpo caído, do outro lado da fogueira. Os aplausos não lhe deixam ouvir o grito desesperado da mãe quando a surpreende no ar. Alívio geral. Laurinha, você conseguiu, Raquel a amiga de todas as horas, corre para lhe abraçar.
 
Espalmando as mãos de encontro uma a outra, como a tirar o pó, Laurinha segue triunfante por entre as barracas. Juca corre ao seu encontro e, sem nada dizer segura-lhe a mão, acompanhando-a na caminhada vitoriosa. Trocam olhares.
 
O pai e a mãe, abraçados, sorriem.
 
Já não é mais criança. Já pula a fogueira de São João, diz o pai.
 
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Circe Palma

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Sobre o Autor : Claudia Bins

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